domingo, 3 de novembro de 2013

Quem tem medo de dedo de dedo no cú?

"A sexualidade típica do machão é impessoal, estereotipada e limitada. Cumprir o papel de macho é o principal objetivo. Trocar afeto e prazer com a parceira é secundário. Importante mesmo é o pênis ficar ereto, bem rígido e ejacular bastante. A mulher, para tal homem, só é interessante como meio de lhe proporcionar esse prazer que, na realidade, não tem nada a ver com prazer sexual."

É isso, gente. O texto de hoje acabou aqui.

Ta, mentira. Não acabou. Lá vou eu me atrever a dar continuidade nele, mesmo depois das palavras sempre certeira da Regina Navarro.

Aliás, no texto de hoje ela vai entrar bastante em cena por dois motivos: 1. ela é muito mais estudada e sapiente do assunto que eu. 2. acho ela foda.

Então, crianças, segurem-se nos seus assentos, peguem a sua pipoca, que hoje vai ser quente.

Sexuais desde pequenos.
Escola. Há, essa grande prisão da qual nunca fui muito fã (nunca fiz dever de casa. Acho que por isso fiquei bom em argumentação e virei redator). Escola geralmente é o espaço onde você passou a ter contato mais constante entre crianças do mesmo sexo e do sexo oposto. E ela ensina muito mais que matemática e português. Elas ensinam, por exemplo, que sexo é feio.

Crianças, que adoram a imitar adultos, aprendem desde cedo o que é xingar alguém. Agora vamos a uma pequena lista de xingamentos comuns: porra, caralho, puta, vá tomar no cu, chupa!, filho da puta, vá pra puta que pariu…

Perceberam algo em comum neles? Todos eles são repressores no sentido sexual. Desde cedo, ensinamos as pessoas que sexo é um insulto. Algo sujo e perigoso. E durante toda a vida adulta, essa sensação é ainda mais acentuada.

Outro dia, a Feminista Cansada falava algo no twitter sobre garotas que eram insultadas na escola e muitas relataram a ela que eram chamadas de "vaca", por terem seios grandes, ou “piranhas", por terem o corpo mais desenvolvido que as garotas da mesma idade, etc. Mesmo que elas nunca tenham tido nenhum contato sexual com ninguém, lá estava sendo jogado na cara delas que, por terem algo em seus corpos que elas sequer podiam controlar, já estavam renegadas a serem sexualmente reprimidas.

Não por acaso, mulheres que nunca se masturbaram na adolescência são as que tem mais dificuldade a chegar ao orgasmo.

Mas calma, meninos também sofrem com isso. Porque masturbação é errada, ora bolas. Então logo cedo aprendem que devem se masturbar rápido, antes que chegue alguém. O resultado? A rapidez se torna um padrão na sua vida sexual. É o que chamamos de ejaculação precoce.

Desde cedo, ensinamos as crianças que sexo é errado e que seus corpos são ruins.

O neuropsicólogo James W. Prescott, disse que sociedades violentas surgem da repressão ao sexo de seus cidadãos. A repressão, principalmente a crianças, torna ela obediente e submissa. Isso porque ela passará o resto da vida tentando reprimir os seus desejos. Assim, a repressão sexual surge como uma forma de fazer nós, ó indivíduos livres, a obedecer ordens, porque tememos a liberdade.

Marilena Chauí vai ainda mais longe, como explica a Girlane Glazar:
“(…) a repressão sexual será tanto mais eficaz quanto mais conseguir ocultar, dissimular e disfarçar o caráter sexual daquilo que está sendo reprimido. Nossos sentimentos poderão ser disfarçados, ocultados ou dissimulados, desde que percebidos ou sentidos como incompatíveis com as normas, os valores e as regras da nossa sociedade.

Quando a repressão é bem-sucedida, já não é sentida como tal e a aceitação ou recusa por um determinado tipo de comportamento é vivido como se fosse uma escolha livre da própria pessoa. "

Sexo é desconforto.
Sabe aquela sensação de desconforto quando você está assistindo um filme na sala com seus pais e, de repente, começa uma cena de sexo? Ela é uma construção social (e provavelmente seus pais em influência nela, assim como os pais dos seus pais tiveram na construção social deles).

Eu acho isso muito, muito curioso. Nos filmes da sessão da tarde, é possível mostrar uma pessoa matando a outra. Mas não se pode mostrar cenas de sexo. Ou seja, é mais aceitável a violência que o amor (ou prazer. Porque sexo nem sempre é amor).

Muitos humoristas tem uma técnica muito eficaz quando o seu texto não está gerando o efeito esperado na platéia: falar de sexo.

Por que? Porque sexo gera desconforto. Falar abertamente de sexo gera desconforto. É basicamente um rir de nervoso. Afinal, aprendemos durante toda a vida que sexo é algo sujo e só deve ser feito com amor (aham, claudia).
Alex Castro, soltou o seguinte comentário sobre sexo:
“Nunca deixa de me espantar o medo que nossa cultura tem do sexo.
Compartimentalizamos o sexo e o colocamos em uma caixinha que deve ser mantida no escuro, embaixo da cama, e jamais mencionada às visitas.

(…) mas o sexo é uma parte normal e integral da vida. comer, beber, transar, dormir, trabalhar, ler, escrever, fumar são atividades banais, normais, não são dignas de nota nem faria sentido se gabar delas.

(quanto escrevo “ontem, caguei, transei, fumei", por que me acusam de me gabar de “pegador" mas não de “fumador" ou “cagador"?)”

Sofremos muito todos os dias pelo estigmas que nos são criados. Desejo reprimidos, culpas sem sentido, medos irracionais…

A maioria das pessoas repetem unicamente aquilo que lhes foi ensinado. Como disse a Regina Navarro:
“É preciso questionar. Através da reflexão podemos nos livrar de crenças e valores que tanto limitam nossa vida. A questão é que o novo assusta, gera insegurança, então apesar da insatisfação, muitos se agarram aos padrões já conhecidos. Para viver bem é preciso ter coragem. Homens e mulheres, aprisionados à moral anti-sexual, não têm a menor chance de experimentar o prazer da troca livre de sensações eróticas.”

Liberdade sexual liberta.
- Diogo, dedo no cu é uma forma de prazer também. Homem não pode ter medo de experimentar.

Essas palavras me foram ditas por um amigo gay, falando sobre seu relacionamento com o namorado e querendo que eu entendesse que sexo não é privação, mas experimentação.
Uma amiga garota de programa uma vez me falou que o melhor cliente que ela já teve foi um francês. Ela disse que ele era livre de tudo, sem pudores ou restrições morais. E isso divertiu bastante ela.

(Aliás, vocês sabiam que na França, o orgasmo é chamado de a pequena morte? Achei isso bem bonito. Mas de orgasmo falo depois)

Depois me vi livre, nunca tive problemas com a minha sexualidade. Não tenho medo de ser chamado de viado, porque não tenho nada contra os homossexuais. Na verdade, admiro muito a força que eles tem de se mostrarem numa sociedade que exige que eles não se mostrem, por puro pudor.

O machismo é tão latente, que os homens se privam de novas sensações e privam as mulheres de novas sensações.

Vou dizer uma coisa com um tantinho de cuidado para não ser mal interpretado: sexo é superestimado.
Tanto é que, muito idosos, ao fim da vida, revelam que gostavam mais de ir ao cinema que de fazer sexo, por exemplo. Mas jovens não tem coragem de fazer uma revelação dessas. “Por que? ”, se pergunta Michael Kepp:

”(…) Quando perguntei a brasileiros de diferentes idades o que na vida dá mais prazer, o sexo ficou, para a maioria, no topo da lista ou perto. Essa tendência me surpreendeu porque o sexo é mais importante em certos momentos da vida do que em outros. Será que todos -solteiros, recém-casados, casados de longa data- estavam no mesmo momento sexual?"

Na verdade, eu não diria tanto que o sexo é superestimado. Mas a busca incessante pelo orgasmo a todo custo é um armadilha que todos corremos o risco de cair. Eu por exemplo, muitas vezes me sinto frustrado por não ter feito a outra pessoa chegar ao orgasmo, ignorando que ainda assim todo o processo foi prazeroso.

Como diz esse texto da Superinteressante sobre o assunto:
“(…) O importante em sexo é não ser egoísta. Você tem que prestar atenção no outro, diz Maria do Carmo. - É dessa atenção mútua que a obsessão por performance pode nos afastar. Orgasmo é bom. Mas é só um dos momentos da relação sexual. O foco total no clímax vai tirando o prazer da descoberta, da experimentação, que são as chaves de uma vida sexual feliz”.

E nisso, voltamos ao primeiro parágrafo, da Regina Navarro:

"A sexualidade típica do machão é impessoal, estereotipada e limitada. Cumprir o papel de macho é o principal objetivo. Trocar afeto e prazer com a parceira é secundário. Importante mesmo é o pênis ficar ereto, bem rígido e ejacular bastante. A mulher, para tal homem, só é interessante como meio de lhe proporcionar esse prazer que, na realidade, não tem nada a ver com prazer sexual."

Considerar sexo assim, não é fazer sexo com a pessoa. É fazer sexo NA pessoa. Sexo é uma troca, uma descoberta. Eu, por exemplo, nunca fiz sexo anal porque não considerava uma fonte de prazer também para a mulher. Pra mim sempre pareceu que só o homem se divertia. Uma amiga minha disse que não, que se bem feito, a mulher também curte. Combinamos de experimentar um dia.

Sexo é isso: uma caligrafia da vida. Porque ninguém faz sexo igual a ninguém. Cada um tem o seu modo de fazer e gosta de cada coisa que se gostar. O importante é experimentar um por um e tentar se libertar das amarras sociais, morais e machistas.

Erasmus Darwin disse que “o sexo é a mais pura felicidade, no que, caso contrário, seria apenas o cálice insípido da vida”. E é verdade. Sexo é muito bom, minha gente. Mas é sempre bom saber que botões apertar.

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